|
ORIENTAÇÕES TÉCNICAS
1. Introdução
Inicialmente apresentamos algumas frases e considerações
que permitem a nossa introdução no campo da geotecnia
de fundações.
a) A atividade produtiva geotécnica
Ao contrário da imensa maioria das atividades produtivas
industriais e, inclusive, da maioria também das outras
atividades da construção civil, no caso da geotecnia
em especial as fundações a atividade
produtiva desenvolve-se sobre um material preexistente não
escolhido, e inclusive não passível de perfeita
identificação.
b) A variabilidade na geotecnia
Os maciços de solos e rochas, como fenômenos
naturais são também fenômenos aleatórios.(Russo
Neto, 1998)
c) O ponto de partida de todo projeto de engenharia geotécnica
A engenharia de fundações trabalha com o binômio
desconhecido x conhecido, ou seja, a fundação como
elemento estrutural (sapata, tubulão, estaca) perante o
maciço terroso ou rochoso in situ.
d) A chave para o sono tranqüilo
Não sendo possível controlar as propriedades do
maciço in situ, na engenharia de fundações
procura-se investigar estas propriedades tanto quanto possível,
dentro das limitações impostas pela disponibilidade
de recursos.
Não basta um projeto bem feito e uma execução
que utilize processos mecânicos e materiais adequados, há
necessidade da visão crítica do engenheiro geotécnico
e dos processos de avaliação/controle da interação
solo-estrutura.
Os controles utilizados na execução das fundações
variam para o tipo e porte de obra, algumas permitem ensaios de
carregamento com facilidade (estacas cravadas) e outras se baseiam
em controles de aspectos dimensionais e qualidade dos materiais
do elemento estrutural (sapata ou tubulão). Estacas escavadas,
além da avaliação da interação
solo/estrutura (capacidade de carga), necessitam, primeiramente,
de garantias sobre a integridade dos elementos estruturais.
2. Projeto
O bom projeto de fundações deve estar baseado em
uma adequada campanha de sondagens, deve seguir as normas e contar
com boa dose de conhecimento específico do local.
Principalmente, deve estar baseado em uma sistemática que
contemple a garantia da execução e do desempenho futuro.
3. Garantia de execução e desempenho
futuro
Dependendo da tipologia das fundações, a garantia
de sua execução e de seu desempenho futuro pode ser
obtida de variadas maneiras.
Fundações profundas em estacas escavadas
A garantia da execução e do desempenho futuro de
estacas escavadas passará por:
acompanhamento
independente e idôneo (empresa especializada);
ensaios
de integridade (PIT);
exame de
fuste (se necessário e exeqüível);
provas de
carga (estática ou dinâmicas);
controle
de recalque, etc.
Em estacas escavadas há a necessidade prévia da confirmação
de sua perfeita execução, ou seja, de sua integridade.
Para isso existem os ensaios PIT (pile integrity test).
Garantida a integridade dos elementos (estacas) resta saber de
sua capacidade de carga. Para tanto os ensaios de carregamento dinâmico
ou provas de carga dinâmica (PDA) são indicados.
Quanto maior o porte e importância da obra, mais a obra necessita
dos devidos cuidados no quesito fundações para ser
aceita ou certificada.
Obras de pequeno porte tendem a resolver a falta de informação
com projetos pesados (mais caros).
Já obras de maior porte, cercadas do devidos cuidados com
investigação-projeto-controle, tem, no seu alto nível
de informação, uma redução da incerteza,
e uma possibilidade clara de diminuição dos fatores
de segurança. Isso, adequadamente utilizado, deverá
permitir economias substanciais.
4. O ensaio PIT
O PIT é um ensaio que tem como objetivo principal determinar
a variação da qualidade do concreto ao longo da profundidade
de estacas de fundação.
O ensaio consiste na colocação de um acelerômetro
de alta sensibilidade no topo da estaca sob teste, e na aplicação
de golpes com um martelo de mão. O acelerômetro é
fixado por meio de um material viscoso, geralmente cera de petróleo.
Os golpes geram uma onda de tensão, que trafega ao longo
da estaca, e sofre reflexões ao encontrar qualquer variação
nas características do material (área de seção,
peso específico ou módulo de elasticidade). Essas
reflexões causam variações na aceleração
medida pelo sensor. É feito um registro da evolução
dessa aceleração com o tempo (normalmente o sinal
é integrado e trabalha-se com a velocidade). Como a onda
trafega com uma velocidade fixa, conhecendo-se a velocidade de propagação
da onda e o tempo transcorrido entre a aplicação do
golpe e a chegada da reflexão correspondente à variação
de características pode-se determinar a exata localização
dessa variação.
O uso mais comum do ensaio PIT é o de detectar falhas na
concretagem de estacas de concreto moldadas "in loco".
Tal uso tem se tornado mais extensivo, sendo inclusive sistemática
comum, de alguns consultores, para aprovação de um
estaqueamento, a execução dos ensaios na totalidade
dos elementos de uma obra.
Outro
uso comum para o ensaio é o de determinar o comprimento de
estacas de concreto.
O PIT não fornece informações de capacidade
de carga do elemento de fundação.
5. Preparo das estacas para execução
dos ensaios PIT
O ideal é que se espere o concreto atingir, pelo menos,
70% de sua resistência nominal para a realização
dos ensaios.
Para concretos comuns, a sete dias da concretagem das estacas os
ensaios são normalmente bem sucedidos.
Para concretos de alta resistência inicial, as estacas serão
arrasadas a três dias de sua concretagem. Assim, ensaios a
quatro ou cinco dias de sua concretagem deverão ser também
bem sucedidos.
O preparo propriamente dito inicia-se pelo arrasamento. Este visa
eliminar todo o concreto de má qualidade existente no topo
da estaca. É importante que esse procedimento siga os devidos
cuidados para que não sejam geradas trincas durante o processo.
A seguir prepara-se área suficiente para colocação
da instrumentação (acelerômetro) e aplicação
do golpe de martelo de mão instrumentado.
A área a ser preparada para os ensaios dependerá
da seção das estacas:
Estacas
até 40 cm de diâmetro ou seção equivalente
- preparar área central com ~15 cm de diâmetro;
Estacas
de 50 cm até 60 cm de diâmetro ou seção
equivalente - preparar três áreas distintas com ~12
cm de diâmetro cada uma;
Estacas
a partir de 70 cm de diâmetro ou seção equivalente
- preparar uma área central mais quatro áreas distintas
com ~12 cm de diâmetro cada uma.
Estas
áreas, normalmente, estarão dentro da área
determinada pela armadura das estacas, e deverão estar distribuídas
de forma a cobri-la criteriosamente.
Essa área deverá estar plana, lisa, seca e limpa
(isenta de gorduras, solo, etc.).
Normalmente são utilizadas lixadeiras para esse fim.
Contudo, esmerilhadeiras (custo de aquisição de ~R$
300,00) com rebolos diamantados (~R$250,00 por rebolo) são
normalmente mais eficientes.
Não será aceito nenhum tipo de acerto
do topo da estaca através de argamassa ou grout.
Também não deverá existir concreto magro lançado
em contato com a estaca a ser ensaiada.
Caso a área preparada esteja úmida, por capilaridade
ou chuvas, será difícil posicionar o acelerômetro
para o ensaio. É prudente que seja mantido um maçarico
na obra para secagem rápida do topo das estacas previamente
aos ensaios PIT.
Sugere-se que o ensaio PIT seja feito já na cota de arrasamento
de projeto, de forma a evitar eventuais danos detectados no trecho
não útil.
No campo serão coletados para cada estaca várias
médias de sinais. Para pontos diferentes de colocação
da instrumentação.
Os sinais armazenados em campo serão transferidos e analisados
em escritório através de software específico.
Os ensaios normalmente utilizam o martelo instrumentado, de forma
a facilitar as análises de eventuais danos próximos
da cabeça. Este ensaio é conhecido como PIT-FV.
Ao final da análise do universo ensaiado, algumas estacas
devem ser escolhidas para terem seu fuste inspecionado. Esse procedimento
vem sendo normalmente usado e é bastante aconselhável.
6. Vantagens e desvantagens do PIT
A precisão do ensaio PIT para determinação
da profundidade de um dano é muito boa. Principalmente quando
se conta com uma óbvia resposta de ponta ou com uma definição
da velocidade de onda para aquela obra, concreto ou estaca.
Na determinação da intensidade de eventual dano,
o ensaio PIT pode ser impreciso. A interpretação do
sinal do PIT não é única, já que algumas
variáveis podem em determinadas situações se
associarem e impedirem uma melhor conclusão.
Assim o ensaio deve ser sempre entendido como qualitativo. Tanto
do ponto de vista de comparação da obra como de estaca
a estaca dentro do mesmo universo.
Desta forma, é procedimento aconselhável e quase
obrigatório, a inspeção de fustes de estacas
escolhidas em função do universo ensaiado, em profundidade
compatível com as possibilidades (normalmente não
mais que 25% do comprimento útil da estaca). Esta inspeção
permitirá uma melhor aferição da magnitude
dos problemas apontados.
A seguir listamos algumas das vantagens do ensaio PIT:
É
capaz de detectar danos no fuste da estaca sem a necessidade de
escavações (na superfície).
Tem execução
rápida e não exige cuidado prévio (na fase
de execução das estacas). Estando as estacas preparadas,
não é incomum fazer mais de 60 ensaios por dia.
Não
exige grandes recursos da obra para sua execução.
É
uma das únicas maneiras de se atingir o universo todo de
um estaqueamento e determinar sua qualidade de forma rápida
e barata.
Suas principais limitações são:
Pouca precisão
na avaliação da intensidade do dano.
Dificuldade
de detecção de danos abaixo de um primeiro dano.
Impossibilidade
de distinguir entre variação de área de seção
e variação de qualidade do concreto (peso específico
e/ou módulo de elasticidade).
Limitação
de comprimento da estaca (a partir de 30 a 40 vezes o diâmetro
equivalente).
Dificuldade
de detecção de dano muito próximo ao topo
(~1,0 m).
7. Normas para o ensaio PIT
Não existe ainda norma brasileira específica para
o ensaio PIT.
A NBR 6122, de fundações, especifica o ensaio em
alguns casos.
As normas internacionais existentes são:
Estados
Unidos (ASTM D-5882-96)
França
(Norme Française NFP 94-160-2; NFP 94-160-4)
Inglaterra
(Specification for Piling - Institution of Civil Engineers - capítulo
11.2)
Alemanha
(Recomendação da DGGT para futura inclusão
na norma DIN)
Austrália
(AS2159-1995)
China
(JGJ 93-95)
|