Sistemas de tomada de decisão clínica para o gerenciamento de feridas crônicas

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Uma ferida crônica é uma ferida que não está completamente curada após muito tempo (entre quatro semanas a três meses) [1]. O aumento do tempo de cicatrização de feridas crônicas geralmente se deve a complexos fatores biológicos, com consequências diretas e indiretas nos pacientes afetados e na sociedade [2].

Por exemplo, as feridas crônicas afetam milhões de pessoas (~ 5 milhões de pessoas no Brasil e 6,5 milhões nos Estados Unidos ), e desta maneira representam imensos desafios econômicos e sociais para os sistemas de saúde em todo o mundo [2,3].

Estratégias aprimoradas e inovadoras para a cicatrização de feridas cutâneas

As investigações de novas estratégias envolvidas na cicatrização de feridas cutâneas, no manejo de grandes feridas e feridas crônicas têm profunda importância médica para a saúde global.

Porém, ainda permanecem como uma área terapêutica não amplamente atendida devido à dificuldade em sua avaliação e gerenciamento de cuidados com feridas.

Em geral, as terapias de feridas cutâneas são classificadas em convencionais ou regenerativas, e estas últimas empregam tecnologias emergentes de pesquisa biomédica.

Como exemplos das terapias regenerativas temos os curativos inteligentes, matrizes de biomateriais bioativos, terapia com células-tronco, terapia genética, administração direcionada de drogas/fatores de crescimento entre outros sendo utilizadas para restaurar a função original da pele após cicatrização e restabelecimento dos tecidos danificados da pele [4, 5, 6].

Entre essas tecnologias emergentes, as terapias baseadas em células-tronco usando diferentes tipos de células, como células mesenquimais e células-tronco pluripotentes induzidas (IPSCs), ganharam muito interesse como parte da medicina regenerativa e testadas em vários ensaios pré-clínicos e clínicos [7].

Essas diferentes estratégias inovadoras são utilizadas sozinhas ou combinadas e têm como objetivos acelerar da cicatrização de pacientes que sofrem com feridas complexas.

Sistemas de apoio à decisão clínica

Para a sociedade, o processo de cura das feridas crônicas envolve muitos profissionais de saúde desde o seu diagnóstico, tratamento, e acompanhamento, e os custos relacionados a este processo têm um impacto importante, representando 1 a 5,5% do total de gastos com saúde [2].

Somado a esse impacto com os gastos, o tratamento das feridas faz-se num cenário complexo de tomada de decisão, pois o cuidador tem uma variedade de causalidades, condições e opções presentes neste processo de decisão.

Desta maneira, os sistemas de apoio à decisão clínica são ferramentas capazes de auxiliar profissionais de saúde ao lidar com decisões clínicas complexas, e podem ser exploradas no tratamento de feridas crônicas [8].

Questionário de avaliação de feridas

Um estudo publicado na revista German Medical Data Sciences, os autores pesquisaram se o Decision Model & Notation (DMN) [9] seria apropriado para modelar o conhecimento sobre tratamentos das feridas crônicas e funcionar no processo de tomada de decisão.

Neste modelo, a “decisão” é a ação de escolher uma opção entre várias possibilidades, e os dados de “entrada” são as variáveis a serem consideradas na situação de tomada de decisão. A “saída” é a opção escolhida, e a “lógica de decisão” define como os dados de entrada conduzem o valor de saída usando a lógica. Tais objetos foram representados na forma de um diagrama de fluxo, chamado “Diagrama de Requisitos de Decisão” [10].

Neste estudo, os autores concentraram-se no problema de decisão para selecionar o material adequado para o tratamento da ferida, baseados em informações contextuais de casos de feridas.

Como entradas, seguiram o método de avaliação: tecido, infecção, desequilíbrio de umidade e avanço da borda [11]. Tal método foi desenvolvido por um grupo responsável pelo tratamento de feridas, e obteve altos níveis de adoção e uso entre os profissionais de saúde.

Os autores definiram as saídas como os materiais e técnicas recomendados, o tempo de retenção, as contra-indicações potenciais e informações adicionais que eram relevantes para o uso destes materiais. Os materiais e técnicas incluíam diferentes tipos de curativos, compressas, espumas, cremes, géis, técnicas de compressão e limpeza [11].

Os autores implementaram o grupo intitulado “Descrição da ferida” com dados sobre a origem, idade, espessura, descrição das bordas e a classificação caso fossem queimaduras.

O outro grupo estava relacionado à “Condição Ferida” com parâmetros fornecendo a fase da cicatrização, o estágio da úlcera, o estado e risco de infecção, o estado do tecido e a presença de descolamento, odor e dor. Dentro deste segundo grupo, havia um subgrupo visando a classificação do exsudato [11].

As duas últimas entradas descreviam possíveis informações adicionais sobre o cuidado e o paciente. Esses dois últimos parâmetros eram “Ação pretendida” (que pode ser, por exemplo, a limpeza ou drenagem da ferida) e a “Deficiência imunológica” que aborda o mau funcionamento da resposta imune (predispondo a infecções e certas malignidades) [11].

Como exemplo do diagrama de requisitos de decisão para a recomendação do material da ferida, obteve-se a seguinte combinação: se um paciente apresentar uma ferida com a descrição da ferida “Idade da ferida = Ferida crônica” e as condições da ferida “Fase de cicatrização = Fase proliferativa”, “Estado do tecido = sem tecido necrótico” e “Presença de exsudato = Verdadeiro”, a recomendação seria “espuma de poliuretano/gaze para feridas com fator nano-oligossacarídeo” [11].

Como resultados, os autores observaram que o modelo DMN era adequado para modelar a base de regras de recomendação de materiais para feridas crônicas, e as recomendações resultantes eram teoricamente consistente e sustentável [11].

Em suma, com este estudo, os autores es criaram um modelo de decisão para recomendações sobre qual material usar no tratamento das feridas, e conseguiram representá-lo no padrão DMN.

A aplicação do padrão confirmou sua relevância para o setor de saúde, e consequentemente abriu a possibilidade de um intercâmbio melhor e mais transparente dos modelos de decisão para escolha do tratamento de feridas crônicas.

A In Situ é uma startup de base tecnológica da área da saúde, que utiliza a terapia celular como ferramenta para a criação de produtos inovadores com foco na cicatrização de tecidos.

 Referências:

 [1] B. M. Kyaw, K. Järbrink, L. Martinengo, J. Car, K. Harding, and A. Schmidtchen, “Need for improved definition of ‘chronic wounds’ in clinical studies,” Acta DermatoVenereologica, vol. 98, no. 1, pp. 157–158, 2018, doi: 10.2340/00015555-2786.

 [2] M. Olsson et al., “The humanistic and economic burden of chronic wounds: A systematic review,” Wound Repair and Regeneration, vol. 27, no. 1, pp. 114–125, 2019, doi: 10.1111/wrr.12683

 [3] Nussbaum S.R., Carter M.J., Fife C.E., DaVanzo J., Haught R., Nusgart M., Cartwright D. An Economic Evaluation of the Impact, Cost, and Medicare Policy Implications of Chronic Nonhealing Wounds. Value Health.2018;21:27–32. doi:10.1016/j.jval.2017.07.007.

 [4] Kolimi P, Narala S, Nyavanandi D, Youssef AAA, Dudhipala N. Innovative Treatment Strategies to Accelerate Wound Healing: Trajectory and Recent Advancements. Cells. 2022 Aug 6;11(15):2439. doi: 10.3390/cells11152439. PMID: 35954282; PMCID: PMC9367945.

 [5] Díaz-García D., Filipová A., Garza-Veloz I., Martinez-Fierro M.L. A Beginner’s Introduction to Skin Stem Cells and Wound Healing. Int. J. Mol. Sci. 2021;22:11030. doi: 10.3390/ijms222011030.

 [6] Hosseini M., Shafiee A. Engineering Bioactive Scaffolds for Skin Regeneration. Small. 2021;17:2101384. doi: 10.1002/smll.202101384

 [7] Lorenz H.P., Leavitt T., Hu M.S., Marshall C.D., A Barnes L., Longaker M.T. Stem cells and chronic wound healing: State of the art. Chronic Wound Care Manag. Res.2016; 3:7–27. doi: 10.2147/CWCMR.S84369.

 [8] J. A. Osheroff et al., “Improving Outcomes with Clinical Decision Support : An Implementer’s Guide,” Improving Outcomes with Clinical Decision Support, Feb. 2012, doi: 10.4324/9780367806125.

 [9] (Object Management Group), “Decision Model and NotationTM (DMNTM),” OMG website, 2021. https://www.omg.org/dmn/index.htm

 [10] Alain Fraynal, Stefan Vogel. Development of a Knowledge Base for Chronic Wound Management Using the Decision Model & Notation. German Medical Data Sciences 2022 – Future Medicine doi:10.3233/SHTI220797.

 [11] R. L. Harries, D. C. Bosanquet, and K. G. Harding, “Wound bed preparation: TIME for an update,” International Wound Journal, vol. 13, pp. 8–14, 2016, doi: 10.1111/iwj.12662.

 Linkagem:

tecnologias emergentes: https://www.insitu.com.br/#quemsomos

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